CRITICA DE ALEXANDRE MATTE DE SAO PAULO, BRASIL

Contrastes entre as Gonzales de todos os tempos: um permanente refluir da repressão em relação ao feminino
[…] entre mangueiras
Lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais
[…]
E eu não sabia que minha história
Era mais bonita que a de Robinson Crusoé.
Infância. Carlos Drummond de Andrade.
Ao analisar a atuação dos Bonaparte (primeiro Napoleão, depois Luís), Karl Marx apresenta no Dezoito de Brumário, dentre outras afirmações, a tese segundo a qual a história se repete a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa. Apesar de os assuntos estarem tão distantes, mas não as histórias que a memória guarda, a afirmação de Marx, de contundente e metafórico modo, aproxima-se da adaptação e encenação – extremamente sensíveis -, de Máximo Gomez, para a obra Las Gonzales, do argentino Hugo Saccoccia.
Ao iniciar o espetáculo, ainda durante a entrada de espectadores e espectadoras ao espaço de encenação, com a luz em resistência, pode-se ver as três irmãs da obra: Genoveva lê e, por vezes, encara aquilo que se afigura à sua frente: misto, talvez, do esforço em trazer à tona as reminiscências vividas, o público, a libertação de suas irmãs: aprisionadas em seu lembrar…; Blanca e Porota, gêmeas aprisionadas, ao balançar coreograficamente seus vestidos, parecem espanar algo: quem sabe o tempo…
O espetáculo com um pouco mais de uma hora, apresentado no acolhedor espaço do casal Máximo Gomez e Nerina Dip, tende a prender espectadores e espectadoras por um conjunto, bem resolvido de expedientes de natureza épica. Trata-se de obra inserida na condição de um mimodrama, no qual Genoveva traz, por intermédio da memória e da narração, suas irmãs à cena. Desse modo, assiste-se ao confronto entre a naturalidade de quem já viveu e ponderou reflexivamente sobre os acontecimentos e o esganiçamento desesperante de viver de modo patrulhado, como ocorre com as duas irmãs mais novas: enredadas nas malhas eficazes da moral provinciana e dominante de uma pequena comunidade. Nesse contraste de historicidades, o trágico centra-se tanto na situação quanto na reconstituição farsesca de uma vida imposta, controlada, coercitiva. Nesse processo, a serenidade de quem lembra defronta-se com o desespero de uma vida cuja única solução aparente parece ser a bebida: vida bêbada, que intenta a fuga.
O texto tem o estofo de grandes autores do passado (permanentemente presentificados, porque o sem sentido do viver não se aparta de nós), desse modo, pode-se pensar em Tchekhov, mais especificamente de As três irmãs (1901), no genial poeta da Andaluzia Federico Garcia Lorca, em tantas de suas criações protagonizadas por mulheres arrebatadas e arrebatadoras.
Ao mergulhar nas fontes e matrizes hispânico-americanas, Máximo Gomez cria uma obra cuja ênfase encontra-se na interpretação e o espetáculo é tecido por meio de cenas e contracenas estruturadas entre o naturalismo e a farsa, o lírico e o épico, os contrastes entre o público e o privado, os símbolos que ganham instância alegórica. Obra de acertos, mesmo no exagero interpretativo das irmãs mais novas: elas são representações alegóricas do modo como Genoveva as vê, passado tanto tempo.
Emilia Guerra e Melina Hernández estão muito bem em suas composições; entretanto, Rosita Avila brilha. A veteraníssima e importante atriz tucumana tem um domínio surpreendente e soberbo daquilo que se poderia chamar técnica interpretativa. Ela visualiza e saboreia cada palavra, cada metáfora, cada nuance do texto. Tempos, pouso emocional, intenções… tudo é fruto de escolha consciente. Tive o privilégio de assistir a obra em duas sextas-feiras seguidas: em ambas, sai arrebatado.

Alexandre Mate
Professor da graduação e pós-graduação do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista – São Paulo; pesquisador e crítico teatral

” 16/12 ”



Jornada de trabajo abierta del proyecto de Investigación PIUNT 26C507
UNT - SPU